segunda-feira, 20 de maio de 2013

AS CONEXÕES ENTRE A MENTE, O CÉREBRO E A EDUCAÇÃO: POR UM ENSINO E APRENDIZAGEM EM REDE


POR MARCELO CUNHA BUENO
Onde começa a escrita? Começa na ideia ou no ato motor de escrever?

E mais... o que nos mobiliza a escrever? A vontade de comunicar ou uma vontade de elaborar, sistematizar a ideia?

Será que essas reflexões acontecem na escola? Sim, porque, se acontecerem, toda função didática sofrerá transformações profundas!

O que queremos de uma criança quando lhe fazemos identificar em uma história, por exemplo, uma informação marcada pela palavra? De que cor era a casa em que João entrou? E o que mobilizamos nas crianças quando, por exemplo, lhes perguntamos uma opinião para um fato ocorrido? Poderíamos, ainda, questionar o que mobilizamos quando a fazemos refletir sobre as suas ações no meio, ou quando a incentivamos a transformar o meio segundo as suas percepções e avaliações. 

Um texto é composto por perguntas. É dessa forma que nos relacionamos com eles para melhor entendê-los. Conseguimos compreender conceitos se soubermos questioná-los. Perguntar, como costumo dizer, é a melhor forma de ampliarmos o que estamos a conhecer, a aprender. Quanto maiores e mais amplas forem as nossas perguntas, mais aprenderemos sobre o que circula pelo mundo.

O cérebro, que será chamado nesse texto de mente (já que não se trata do corpo material, mas de suas conexões, pensamentos, energia, neurônios e afins; já que se trata de algo em movimento, dinâmico, e não estático), se não questionado, se não perguntado, economizará energia, simplificará caminhos para a compreensão. Justo, já que seu trabalho desprende de uma quantidade de energia enorme se a compararmos com outros órgãos, músculos do corpo humano.

Nesse sentido, escola e família são responsáveis por “exercitar” a mente das crianças. Desde muito cedo! O próprio contato corporal, material e o contato criativo, imaterial, são essenciais para ampliarmos as conexões da nossa mente. Aquela imagem estática que acende luzes do raio x do cérebro (vemos cores azuis para emoção, vermelhas para razão, como se fossem dessas cores e existissem classificações dessa natureza determinate) é uma falsa representação do que acontece realmente. Sim, “as luzes se acendem”, mas é uma sinfonia de conexões, um movimento de descargas energéticas, de pensamentos em ação que mobilizamos para dar sentido, compreender o que se passa dentro e fora de nós. Quanto mais perguntas fizermos a uma criança, quanto mais elementos oferecermos para ela entender os temas mundanos, mais conexões fará.

Por isso as perguntas do começo do texto. O ato de escrever está, em mim, diretamente ligado às minhas vontades, aos livros que li, aos elogios e críticas que recebi, a minha profissão. Emoção, razão, habilidades ou não na linguagem escrita, tudo mobilizado no ato de escrever. E a prática da escrita me faz escrever mais e melhor. Sim, porque, ao percorrer caminhos de conexões, a mente cria uma espécie de memória, “facilitando” o meu trabalho a cada vez que o pratico.

Por isso, ao vermos uma criança andando, meio titubeante, nos perguntamos se já fomos assim. Hoje, com as habilidades corporais, com a prática do caminhar, quase nem pensamos nos passos que damos. Treino, prática, tempo, repetição.

Mas a mente precisa de desafios, para além da repetição, para além do uso cotidiano das ações. A mente precisa viver pontos de vista. Precisa caminhar de dentro para fora e de fora para dentro. Explico-me, já estabelecendo relações com o que pode acontecer em sala de aula se levarmos em conta a nossa rede relacional do pensamento. Escolhi chamar essas reflexões e práticas de “Conexões entre mente, cérebro e educação – ensino e aprendizagem em rede”.

Entender o que significa árvore, com suas definições biológicas, descritas em uma enciclopédia, por exemplo, é muito importante para a mente. Essa compreensão está ligada à ideia de localizar no texto uma determinada informação. Tem relação com a constatação dos fatos. A escola técnica, apostilada, trabalha bastante nessa esfera de pensamento, por assim dizer.

Conseguir entender o que significa uma árvore de jacarandá, por exemplo, está num outro campo da mente. Um campo que relaciona dois elementos estáticos, árvore e jacarandá, e os une, possibilitando-nos reconhecê-la entre outras espécies, diferenciando-as com suas especificidades. É o que nos propõem, por exemplo, os conhecimentos que circulam em uma sala de aula quando queremos que as crianças identifiquem, por diferenciação, por uma relação binária, determinados conteúdos. E está presente tanto nas escolas ditas tradicionais, como nas escolas de base cognitivista, humanista (as correntes pedagógicas ou relações curriculares não são essenciais aqui, apesar de me referir a elas, nomeando-as).

Abrir caminhos para relacionar outros elementos a partir do que se discute, por exemplo, a importância de preservar as árvores de jacarandá em determinado lugar, pressupõe outra mobilização. Uma mobilização que dá conta de relacionar informações, de costurar diferentes disposições de entendimentos, de manter crítica frente a determinada situação. É o que trabalham as escolas que têm a pedagogia de projetos como bandeira. Um tema que se conecta a diferentes áreas do conhecimento. Uma culinária sobre um país, um trabalho de pintura sobre um artista e assim por diante.

Agora, é muito raro encontrarmos a esfera do social, do compartilhamento, da transformação do meio. Uma relação que supera o trabalho social como: conhecer uma “realidade” vivenciando-a de forma “lúdica”, trocar cartas com crianças de diferentes condições econômicas, culturais e sociais. Essa relação de pensamento tem conexão com compartilhar, com reconhecer, de forma crítica, necessidades específicas, com a capacidade de avaliar, criar instrumentos procedimentais, com comprometimento coletivo, com compreensão das implicações humanas que as nossas ações podem gerar. É o que tem circulado por instituições de ensino com o apelo do empreendedorismo sustentável, consciente socialmente. Plantar uma árvore de jacarandá, para usar um exemplo que siga o raciocínio anterior, é uma ação do pensamento nessa esfera. Plantar, não no gesto de jogar semente na terra apenas, mas de conhecer todo o ciclo do gesto de plantar, estabelecendo relações entre terra, árvore, adubo, plantio, pá, água, luz, ecologia, um balanço nos galhos da árvore... e a poesia de Manoel de Barros.

Veja, essas formas de trabalho não são isoladas e nem pertencem a uma determinada sequência evolutiva. Quando vemos coisas, quando escutamos, quando lemos, sentimos, estamos mobilizados em todas essas frentes. O que acontece, como disse antes, é que somos “treinados” pelo meio, ao longo de toda a nossa vida, a escolher determinados caminhos. Caminhos que facilitam a nossa compreensão, que economizam energia. É aquela memória da mente que é executada sempre que repetimos a mesma conexão. Não é certo que repetimos os mesmos modelos de relacionamento, repetimos rituais de estudo, repetimos as mesmas aulas sobre certos conteúdos? Não é certo que buscamos sempre uma metodologia que facilite o ensino e aprendizagem dos nossos alunos? Sim, esse é um caminho que se torna mais fácil com a repetição (tradição?), mas merece ser mudado, pelo bem da nossa mente. E o mudamos quando o questionamos, provocando diferentes acessos. Como posso, em minha aula de geografia, colocar elementos da música? Como, em minhas aulas de ciências, posso relacionar seus conteúdos com elementos históricos? E por que dispor sempre dos mesmos questionamentos para disparar um conteúdo? Por que não experimentamos entrar pelas janelas, ao invés das portas, quando se trata dos conteúdos-que-precisam-ser-ensinados para as crianças?

Há tempos, aqui na Estilo de Aprender, temos experimentado uma relação com o-que-precisa-ser-ensinado bem diferente do que vivemos e do que se vive em muitos espaços de educação. Experimentamos formas de conexões entre os conteúdos a partir do questionamento dos mesmos. Digo que estamos a praticar aquela última relação que mencionei, que pressupõe uma ação compartilhada, de transformação do que está posto no meio. Trabalhamos na esfera da criação conceitual. Uma criação que muda o currículo, a forma de pensar dos docentes, famílias e estudantes, que muda as concepções de infância, ensino etc.; que muda a ideia do que se está a avaliar. E mudam-se os espaços, mudam-se os livros, muda-se o se expor à escola... transforma-se escola.

E... Onde começa a escrita? Começa na ideia ou no ato motor de escrever?

E mais... o que nos mobiliza a escrever? A vontade de comunicar ou uma vontade de elaborar, sistematizar a ideia?

ENTRE A AUTORIDADE E A AUTORIA - A CRIAÇÃO DA FIGURA DO EDUCAUTOR

POR MARCELO CUNHA BUENO
Está cada vez mais claro: toda vez que um educador deixa de estudar, deixa de planejar as suas ações, torna-se um ditador, um pastor, um pregador. Impõe, limita, imita, condiciona, grita sua falta.

Toda autoridade, no sentido da imposição, é demonstração de falta de cuidado, de afeto, de uma insegurança e, no caso da escola, de estudo. Descuido com o outro. Sim, porque estudar para os estudantes, planejar uma aula, é demonstração de afeto, de um cuidado. Quando o educador se vê (?) perdido diante de seu grupo, sem saber o que fazer, acaba impondo o silêncio, acaba impondo as formas e fôrmas de pensar. O pensar se transforma em um maquinário da razão. O silêncio se transforma na não expressão. O silêncio se transforma em grito de desespero.

Dar-se ao acaso, jogar-se ao desconhecido, não encontrar respostas, são, entre tantas outras, imagens de uma educação que se faz no presente, no acontecimento da relação. É por essa educação que deveríamos educar. Mas, vejam, é preciso reflexão. É preciso estudo para chegar a esses lugares. Porque são lugares. Porque há caminhos. Porque há disposições de ideias e saberes. Então, a ideia do se ver (?) perdido é o oposto do devir, da energia que circula entre os espaços e tempos, entre a possibilidade de conhecer e a constatação do desejo em aprender.

O estudo tem relação com a constituição de quem somos. Estudando, criamos nossa pele. Estudando, colocamo-nos ao mundo com o sentimento possível existente entre o que ensina e o que aprende. É no ato de estudar que abrimos caminhos para pensar em como chegamos a ser o que somos. O estudo nos oferece uma identidade da diferença. É o que nos faz únicos. Porque os estudos têm relação com escolhas, com afetos e disposições. Cada um estuda seguindo seus tempos, seus sentimentos, interesses, aflições.

O estudo compõe relações. Fala palavras. Manifesta culturas. Expõe angústias. Determina caminho. Sustenta-se em argumentos. O estudo nos oferece autoria.

E, quando a autoria nos estudos nos falta, quando falamos pelas palavras dos outros, das correntes e tendências, em nome de, falamos a resposta esperada, assinalamos a alternativa correta, deixamos de lado a autoria, abandonamos o pensamento que nos pertence. E, se deixamos de pensar por conta própria, não nos sobra argumentos. E uma vida sem argumentos (além de despotente) é uma vida assujeitada às formas impostas por aqueles e aquilo que, dentro das escolas, transvestem-se de apostilas e doutrinas metodológicas.

Um educador sem estudos, um executor de métodos, um educador que se esconde atrás de apostilados, de grandes correntes de educação, de rankings de notas, de diplomações acadêmicas, só encontra validade para o seu saber nas faltas dos outros, os seus estudantes. Só demonstra poder quando ele, o chefe, o capitão da sala de aula, distribui notas aos seus estudantes.

Escolas deveriam ser a geografia do estudo. Parece redundante, mas é tão difícil encontrarmos esse espírito autor dentro delas! É tão difícil vermos professores estudando para serem educadores. É tão raro vermos autoria de pensamento em sala de aula.

Para que isso aconteça, a escola deveria começar a se perguntar sobre o que pensa, sente, entende sobre aquilo que circula em seus corredores. Os educadores, docentes de sala, coordenadores e diretores devem elaborar perguntas que lhes levem à reflexão - inquietante - do ponto em que estão. Dá trabalho, mas é do que se trata ser educador.

Como os educadores se relacionam com o currículo da escola? De que forma e que espaços têm para mudar, transformar conceitos? Há lugares para uma reflexão coletiva sobre intervenções, sobre ideias daquilo que se pensa e faz na escola? O que a escola oferece como repertório literário de estudo para seus professores? Qual é o papel da coordenação pedagógica na formação e nos estudos dos educadores da instituição? Os educadores escrevem? Que espaço há para pesquisas e estudos ligados às artes plásticas, musicais, audiovisuais nos lugares marcados do registro escrito? Quando e de que forma os educadores podem comunicar o que estudam, o que refletem sobre educação? Educar é, em sua escola, um ato autoral?

Pensar - mais - sobre o pensar. Pensar mais sobre o que se pensa... para transformar o que se faz.

Esse é o espírito do Educautor!

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013


O LUGAR DAS PERGUNTAS NA ESCOLA


POR MARCELO CUNHA BUENO

O que mais vemos e ouvimos nas escolas? Respostas. Isso foi o que me disse um menino de 6 anos de idade! “A escola tem resposta para tudo!”, dizia ele com uma cara meio entediada! Uma pena! Não pelo tédio de seu rosto (na verdade, essa é uma constatação que provoca tédio mesmo), mas pela escola se preocupar tanto com as respostas! Sim, porque não sai da minha cabeça de que seria justamente o contrário a “função” da escola: ensinar a fazer perguntas!

São elas, as perguntas, que nos convidam a passear pelo conhecimento. São as perguntas que nos aproximam de culturas, de espaços diversos, de possibilidades infinitas de conexões de temas! Não é à toa que os pequenos não param de perguntar! Por que isso, por que aquilo? Quantos e quantos porquês? Eles sabem das coisas! Perguntam para renovar o que está posto, aquilo que chamamos, de forma displicente, de verdade ou de realidade!

Eles sabem que as perguntas os aproximam de outras crianças, de outros adultos.

Ao perguntar, movemos conhecimentos em direção ao nosso interesse. Uma série de aprendizados se juntam para se concretizarem em um querer mais. Ao perguntar, o sujeito mobiliza seus conhecimentos prévios, sua capacidade de sistematizar ideias, de compor narrativas e de afetar o outro em busca de seu objeto do desejo, que não é a resposta, mas a vontade de pensar sobre o que será dito! E sistematizar ideias significa exercer planejamento sobre aquilo que queremos saber. Penso, elaboro, adapto ao outro e expresso em palavras (usando, muitas vezes, o corpo como ferramenta também!).

A pergunta é um convite a uma produção textual atenta às narrativas. Atenta à descrição. Atenta aos detalhes, mas também aberta às generalizações. É um exercício potente de linguagem oral e estruturante para a noção de coletividade, de pertencimento ao meio cultural, social e natural.

A pergunta é um ato de coragem. Ao perguntar, o sujeito se expõe por inteiro. Dá-se a responder ao outro. E isso significa que deseja se refazer com o que virá de fora. Perguntar é se abrir à transformação!

As perguntas valorizam o tempo. O vivido no aqui e agora, que te mobiliza a pensar sobre o que nos passa. Pergunta busca reescrever a memória. Cada vez que perguntamos sobre o que nos passou, desejamos recriar e reviver essas histórias. Para entendê-las sempre de outra forma. Pergunta-se para nos fazermos presentes no devir. Ao perguntar, abrimos espaços ao devir. Isso que se constrói entre um e outro, no ato de pensar a partir da pergunta.

A escola, de tanto responder, esqueceu-se de ensinar a fazer perguntas. Esqueceu-se do sentido da palavra, do valor do outro, do devir. Encara conhecimento como objeto reconhecido na resposta. A escola empobreceu as narrativas sobre o que nos passa. Deixou de se preocupar com o aqui e o agora. E não cultiva mais o silêncio, aquele que impera quando somos mobilizados a pensar diante de uma boa pergunta.

Portanto, disse ao menino: experimente fazer perguntas às respostas que a escola te dá! No mínimo, você ganhará o silêncio! E já é grande coisa, vindo da escola!

 
http://www.estilodeaprender.com.br/marcelocunhabueno/textos/O_LUGAR_DAS_PERGUNTAS_NA_ESCOLA.pdf
 

 

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

O CAMINHO PARA A CONQUISTA DA ORALIDADE


POR MARCELO CUNHA BUENO

Um corpo sensível! Um corpo que sente cada pedaço do mundo! Um corpo que procura organizar as sensações intensas e constantes em sua relação com o fora. Sons, aromas, calor, frio, dor. Tudo ao mesmo tempo. Nesse instante.

A repetição dessas sensações, dessas relações, da dança entre o dentro e o fora, acaba por ajudar a criança, o bebê, a construir sua memória, seu repertório. O tempo é instrumento que ajuda a criança a organizar suas sensações. A determinar o que é da esfera dos sentidos.

Seus movimentos deixam de ter o ar caótico e se equilibram. Suas mãos se tornam a continuação de seus olhos. Esses desejam algo e, como num passe de mágica, estendem-se até os dedos, realizando a exploração do objeto desejado.

Seu corpo é a sua fala. Seu corpo é toda a síntese daquilo que pensa, elabora e questiona sobre o mundo que começou a habitar. O choro. Expressão sonora de sensações ainda sem controle, ainda sem palavras. O choro, palavra universal, que engloba, acolhe e convida sensações, sentimentos e incômodos para conviverem juntos em um movimento intenso de inspirações e expirações.

Olhos, braços e mãos. Agora, pernas e pés compõem sua comunicação. Caminha para chegar onde quer. Anda para dizer o que deseja, onde quer chegar.

De repente, um som diferente. De repente, uma escuta para um aglomerado de sons com intenções dos adultos. O que eles dizem?

Criança sabe ler! Sabe ler desde cedo. Lê as intenções daquilo que ainda não domina! O que dizer de uma criança que compreende o que seu pai, sua mãe acabam de lhe pedir mesmo sem ter a linguagem oral desenvolvida? Letrada de intenções. Assim é a criança nesse momento.

E, de tanto ler “intensons”, começam a imitar os sons. Começam a testar sua oralidade num jogo maxilar. E esse jogo desperta interesse dos adultos que a cercam.

É como se renovasse seu estoque de fofuras e usasse mais esse recurso para chamar atenção do mundo. E chamar atenção do mundo é se comunicar. Querer dizer algo! Ser alguém no mundo!

Entende que tem coisas que saem da boca. Quem não viu ou experimentou ser explorado pelo dedo de uma criança, tentando tirar da boca aquela coisa que chamamos de voz, palavra, frase? A criança procura na boca do adulto as palavras que ainda não tem!

Descobre que consegue falar a última sílaba das palavras. Acompanha as músicas dessa forma. Lembra-se de palavras simples, que marcam algum ritual do dia, como beber água, ir à escola, mãe no trabalho, comida, sono. Fala uma palavra inteira. Junta duas. Forma frases. E, quando menos esperamos, cria histórias. Conta suas histórias. Faz memória com sua oralidade.

Assim, ou mais ou menos assim, caminha a criança desde muito cedo, nos primeiros anos de vida até a conquista do universo da comunicação oral. Para que esse caminho seja repleto de sentido e que pais e mães possam aproveitá-lo e ajudar no desenvolvimento da linguagem oral, ofereço-lhes algumas dicas importantes.

Converse sempre!

Conversar com a criança é encorajá-la a pensar! Pensar sobre o que vive! É sinal de afeto, pois conversamos com quem queremos compartilhar histórias. A conversa é um sinal de afeto social. É demonstração de importância para a criança. Converse sobre o dia, sobre histórias passadas entre vocês. Sobre acontecimentos recentes. Sobre os planos para o final de semana. Sobre o tempo. Sobre a escola. Sobre os amigos.

Pergunte!

Perguntar vale mais do que responder. A escola passa todo o seu tempo pensando em ensinar respostas. Assim crescemos, achando que o aprendizado está nas respostas. Quem pergunta é que domina o tema. É quem é capaz de sistematizar o que sabe, relacionar com outros conhecimentos, pensar no remetente da conversação e expor, com palavras adequadas, aquilo que deseja saber. São muitos movimentos inteligentes que envolvem o universo do questionamento. Pergunte sobre gostos. Pergunte sobre opiniões. Pergunte para fazer pensar, refletir. Para se colocar no lugar dos demais. Para colocar ideias e se fazer presente. Pergunte para que a criança ganhe a sua própria voz.

Não “infantilize”.

Temos a obrigação, a função, de ajudar a criança a falar corretamente. Desafiar a criança a encontrar formas adequadas de se comunicar com o mundo. A fala é social e as palavras que compõem a linguagem oral devem ser faladas para que exista entendimento. Água não é dada. Cachorro não é auau, gato não é miau, comida não é papá. Esses recursos, além de serem apreciados pelas famílias, facilitam a comunicação entre os envolvidos na cena, mas não ajudam a criança a construir socialmente a sua noção de comunicação.

Falar corretamente.

Atenção à fala. À gramática. Às gírias. Atenção aos xingamentos. Às intenções. A fala é um sinal de respeito. De atenção com o outro. Com a cultura. E deve ser cuidada por aqueles que falam.

Ler sempre!

Ler é a melhor forma de compor uma fala, uma oralidade rica, repleta de conexões. A melhor forma de nos aproximarmos da intensidade da comunicação que se vivia nos primeiros meses de vida. A leitura é capaz de atribuir à fala sua potência vital! É capaz de atribuir poesia ao que se fala, ao que se diz. Ler é a costura entre o que se fala, o que se escuta e o que se sente!

Entre na escola!

A escola é o espaço da comunicação social. Lá na escola, todos se comunicam. E, para conseguir ser e estar nesse meio, preciso falar. Preciso dizer o que penso, sinto, desejo. A criança, na escola, acaba fazendo a ponte entre uma comunicação mais familiar, mais individual, e uma comunicação social, mais coletiva.

E o caminho segue... do corpo para a fala, para o corpo na fala, que é a escrita. E isso já é uma outra fala.

 


 

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

ENTRE O QUE FALA E O QUE ESCUTA

                                                                                                  POR MARCELO CUNHA BUENO
 
           A questão está posta: estudantes não escutam seus professores.

Não escutam a matéria dada. Não escutam as regras colocadas. Não escutam os esforços das escolas em fazer com que gostem de estudar. Não escutam mais as suas famílias. Não escutam, pois só pensam em seus tablets, smarts e afins. Não escutam porque foram condenados a pertencerem a uma geração que sempre será pior do que a geração passada.

Mas o que acontece? Ficaram surdos?

As escolas e seus professores se esforçam em tentar significar suas falas, chamando a atenção dessas crianças e jovens surdas à voz dos adultos. Gritam, fazem vivências, tentam envolver famílias, realizam diversas estratégias tentando significar suas responsabilidades. Eles continuam surdos à escola. Então, pensamos: estarão eles surdos de verdade ou somos nós que desaprendemos a falar a sua língua?

Sim, porque sabemos que a escola, por mais “moderninha” que se pretenda, ainda pratica e comunica linguagens antiquadas, por assim dizer. Continua avaliando mais faltas do que conquistas, continua classificando e ranqueando as aprendizagens, continua apostilando saberes e conhecimentos de forma limitadora e empobrecedora, continua exigindo silêncio, continua pedagogizando relações, continua atribuindo diagnósticos aos que não se encaixam, continua pensando o currículo de forma sequenciada, continua negando que seu papel é fazer com que meninos e meninas a superem (entendam que os saberes não estão apenas lá).

A escola, que sempre disse que seus muros deveriam ser derrubados, não encontrou, até os dias atuais, ferramentas para, de fato, implodi-los. Até hoje, pois não esperava que seus próprios habitantes, os estudantes, fossem essas ferramentas. E, hoje, com seus muros no chão, sente-se perdida. Encontra-se em um profundo ressentimento por não conseguir mais estabelecer comunicação com o mundo de “fora”. Ressente-se por ter seus muros derrubados por seus próprios habitantes: os estudantes.

E sua paralisia a calou, a ensurdeceu! Criou um gigantesco abismo entre aquele que fala e aquele que escuta. Entre estudantes, escola, professores e famílias.

Repensar espaços, novas geografias e composições arquitetônicas para além das quadras esportivas, laboratórios, salas de informática, salas e espaços de conhecimentos marcados.

Repensar seus currículos. Singularizar aprendizagens, didáticas, avaliações. Ampliar seus repertórios. Estender seus braços, acolhendo projetos que vão além da escola. Um currículo que converse com os assuntos que mobilizam jovens e crianças. Um currículo plástico, que convide os professores e professoras a criá-lo à medida que se relacionam com seus estudantes. Um currículo inteligente, que costure diferentes ideias, matérias, conceitos.

Repensar seus educadores. Pessoas que fizeram escolhas. Que fazem escolhas todos os dias. Pessoas-educadores, que superam a figura professoral e conquistam o espaço de professores-pesquisadores.

Repensar suas falas. Falas que comunicam, convidam para uma conversa. Falas que superam o famoso “pedagogês” e respondem, perguntam, questionam com as famílias e estudantes o que significa fazer parte de uma escola.

Entre o que fala e o que escuta, há um espaço infinito de relações, de caminhos. A escola passou todo o tempo achando que traduziria a língua de seus habitantes. Passou o tempo todo impondo sua língua a seus habitantes. Chegou a hora de escutarmos mais do que falarmos. Abrirmo-nos ao outro, as suas palavras e gestos. Entre o que fala e o que escuta, há uma imensidão de vozes! A sua, a minha, a nossa, o eco.

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

PARA APRENDER A LER E ESCREVER SEM PULAR ETAPAS

POR MARCELO CUNHA BUENO
Vamos escrever uma história. Era uma vez uma criança. Ela começou, logo no primeiro ano de vida, a entender que consegue modificar o meio para ter o que deseja. Chora, emite sons, e as pessoas que estão a sua volta reagem a favor de seu crescimento. Ela começa a se interessar por isso e pratica diferentes variações de sons, de gestos. Comunicação em ação! Início de um sentimento de mundo. Eis que, no meio de todo esse turbilhão, ela experimenta os primeiros passos. Mais um turbilhão. Caminha de um lado a outro, seu repertório se multiplica, suas pernas a levam a tocar, ver de perto, sentir, tudo aquilo o que os seus olhos conseguem e querem ver!

Um pouco mais adiante, de tanto fazer traços, formas, linhas e pontos nos papéis, paredes e afins, percebe que consegue narrar, contar histórias, vivê-las e representar emoções, sentimentos, fantasias por meio de desenhos! Seus traços dão ação para a sua emoção. Fica assim uns anos, fica assim um tempo. Tempo suficiente para fazer com que se sinta segura para continuar caminhando, para continuar crescendo.

De repente, descobre, com a ajuda de seus adultos, que isso não é suficiente, ainda, para estar no mundo, para fazer parte dele. É preciso se tornar alfabética, alfabetizada, letrada. Ler, escrever e interpretar.

Letras, palavras, frases, pontos, linhas, textos, histórias. Tudo o que conquistou até aquele instante, que teve tempo para sentir e caminhar em seu tempo, aquele tempo das permanências, dos sentidos, que faz com que as coisas durem uma vida, agora, em meses, ainda é insuficiente para ela estar nos contextos sociais.

E é com esse pensamento que eu me relaciono sempre que vejo uma criança se alfabetizar.

Vamos lá: TODAS as crianças que estiverem em uma escola comprometida em alfabetizar serão alfabetizadas. Não é verdade que aquelas que aprendem a ler e a escrever mais cedo escreverão melhor quando adultas. Também não é verdade que quem escreve antes de entrar no Fundamental será um estudante bom de pesquisa, de escrita e interpretação de textos.

Escrever e ler são possibilidades de se relacionar com o mundo. Mas brincar, desenhar, jogar, fazer sons, inventar coisas, calcular, pesquisar, conversar e silenciar também são! E são tão importantes quanto! Há quem diz que não. Bem, no mundo dos adultos, ler e escrever parece que sempre foi o carro-chefe das coisas. Mas, no contexto infantil, um contexto em que as linguagens e as representações de mundo ainda estão se estruturando, tudo tem valor! Todas as formas de comunicação são fundamentais para o crescimento das crianças.

E é por isso que ler e escrever precisa de tempo. Ninguém ficou com os seus filhos e filhas forçando-os a andar e a correr enquanto ainda engatinhavam, ninguém forçou as crianças a falar palavras enquanto ainda davam seus gritinhos e grunhidos, não é? E por que forçar com a leitura e com a escrita?

A alfabetização não se restringe apenas à decodificação do alfabeto. Não é somente juntar umas letras aqui, outras acolá. Ler e escrever vai além. Ler e escrever é expressar o que se pensa, o que se sente, é saber que essa comunicação precisa de alguém que fale, alguém que escute... Para que, por que, para quem se escreve?

Com três e quatro anos, por mais que as crianças estejam escrevendo as letras, geralmente, são as dos nomes delas, ou as dos nomes de seus familiares mais próximos, ou as de seus amigos. Mas ainda têm um caminho para percorrer. Um caminho que deve ser planejado pela escola. Um caminho que pede tempo. Um tempo mais alargado, sem pressa, sem pressão... Um caminho que equilibra perfeitamente brincadeiras, jogos, danças, pinturas e desenhos com letras e números. Ninguém escreve mais e melhor porque a escola puxou a alfabetização para três anos de idade. Pelo contrário. Há tempo para tudo.

Teoricamente, as crianças são alfabetizadas até os seis anos de idade. Sabe, nessa época, entre cinco e seis anos, gosto de conversar com as famílias para explicar sobre esse caminho pelas letras. Possíveis intervenções, tirar aqueles medos do que “pode” e “não pode” ser feito, conversar sobre ideias de “acertos” e “erros”. Tudo isso é importante para não confundir as coisas nesse momento tão importante para a criança.

Algumas dicas para todas as idades, inclusive para pais e mães: a boa e velha leitura antes de dormir. Você pode alternar a ordem da leitura com seu filho ou filha. Procure compartilhar escritas com as crianças... coisas simples: listas de compras, coisas da rotina, preferências musicais e literárias... Pense que elas começam a escrever com letras de forma maiúsculas, depois passam a ler livros com letras de imprensa, até chegarem à letra cursiva. Leia a lista de supermercado e outras listas. Imprima músicas, histórias e contos de que ela goste e leiam juntos.

Tenho certeza de que são pensamentos simples e comprometidos com o tempo das crianças que farão as suas histórias serem escritas com grandes e bonitas letras!

TEXTO PUBLICADO NA REVISTA CRESCER - SETEMBRO DE 2012

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

BLOG DO MUNDO DO SÍTIO

TEXTO DA SEMANA: PARA MUDAR A NOSSA CIDADE

 
As eleições para prefeito e vereadores está chegando! Vocês devem estar por dentro das eleições de suas cidades, não estão?

E vocês sabem o que cada candidato pretende fazer para melhorar a vida de cada morador da sua cidade? Conhecem a sua proposta de governo? Sabem se o candidato é coerente com o que fala?

A cada eleição, eu fico mais e mais impressionado com as coisas que os políticos falam! Fico impressionado com a forma que se tratam, fazendo acusações, comparações. Fazer política, propor mudanças, deveria ser algo que agregasse as pessoas! Algo que unisse todos para um bem comum! Sim, é impossível agradar a todos! Sabemos disso! Mas deveríamos tentar ao máximo unir as pessoas! Fazer um mundo mais generoso e afetivo!

Cada um sabe o que seria bom termos de transformações em nossas cidades. Eu, por exemplo, que moro em São Paulo, queria ver uma cidade mais organizada: queria um transporte público com mais qualidade, queria mais verde, queria mais espaços para bicicleta, queria que as pessoas tivessem oportunidades de emprego e cultura, que as crianças e os jovens tivessem a experiência de estudar em uma boa escola, que conseguíssemos transitar pela cidade sem esbarrarmos em buracos, construções irregulares... e, com isso, lógico, a minha cidade seria menos violenta, menos caótica, mais acolhedora. Assim por diante!

Os políticos, eleitos pelo nosso voto, ganhando o dinheiro da nossa contribuição de impostos, deveriam deixar de usar esse espaço da prefeitura para se promoverem, como um trampolim para outros cargos. Deveriam, ao invés, fundar partidos e honrar esses desejos do povo, que deposita neles o sonho de mudança!

Procurem saber sobre as propostas dos candidatos de suas cidades, vejam se atendem às demandas das pessoas que conhecem, e lembrem-se de cobrar do futuro prefeito as promessas que fez para se eleger! Vocês, crianças e jovens, serão determinantes para morarmos em uma cidade, estado e país melhor!

Um abraço e até o dia 19 de setembro,

Marcelo